Toda nudez ainda é castigada?
Lá em Roma, os homens só podiam
visualizar a nudez de uma mulher, se ele morasse próximo ou passasse perto de
sua janela, e caso ela estivesse aberta, a lua refletisse em seu corpo. Isso há
dois mil anos atrás. Já na Idade Média, entre os séculos V e XV, diversas
esculturas, como a de Davi, de Michelangelo, exibiam os órgãos genitais. O
mundo foi evoluindo, mas a nudez continuava sendo um tabu.
Ainda no século XIX, moças de família
e de bom tom, nem no espelho ficavam se admirando como vieram ao mundo. Eram
proibidas de se tocar e deixar que alguém as visse “decomposta”. As mulheres
dos anos 90 ainda sofriam represálias. Apesar da onda dos micros - shorts e
minissaias, elas eram julgadas e apontadas. Mas os homens tinham acesso a nudez
das mulheres mais desejadas do planeta. Sim, era a época de ouro da “Playboy”,
que conseguiu desnudar Sabrina Sato, Sheila Carvalho, Cléo Pires, Adriane
Galisteu, as mascaradas Suzana Alves (Tiazinha) e Joana Prado (Feiticeira) e
diversas outras musas. A revista povoou a imaginação de uma geração de homens,
até a sua finada edição. E ainda eram os tempos em que um extinto programa
dominical, apresentando pelo Gugu Liberato, colocava em uma brincadeira da
banheira, musas com biquínis minúsculos.
Até que chegamos a era da internet e
da liberdade sexual. Aonde as pessoas despem-se quando desejam e até mesmo
enviam para seus parceiros ou a quem mais desejar. Afinal inicia-se uma
conversa e logo vem o “vamos trocar nudes”. Até praia de nudismo, nos dias de
hoje, são comuns. O fato é que o corpo nu não representa mais um escândalo. Exceto
para os conservadores sociais, com ideias medievais, que só enxergam a nudez
com perversão. Mas, por outro lado, se o corpo nu está tão mais fácil e
disponível assim, por que a nudez ainda interessa ao outro? Principalmente aos
homens.
O lance é que, na suma maioria, os
ensaios, como desta publicação, não representam somente fotos de mulheres peladas.
São fotos de mulheres, que representam um produto, ou seja, com o intuito de
embelezar quaisquer vistas. São como uma foto que tiramos em um quarto, jardim
ou um ambiente por aí, entretanto são produzidas, pois como disse, estamos
falando de beleza, e o detalhe de estar sem roupa, é realmente um mísero
detalhe. O nu artístico interessa justamente por ser a inversão do
convencional. O nu é o natural da natureza. Ninguém nasce vestido, por exemplo,
então é comum a curiosidade de saber como o outro é, por baixo das vestimentas.
Devido a isso, o grande sucesso de revistas masculinas como a “Playboy”, foi
estrondoso. Era a chance de ver a protagonista da novela, a dançarina de axé ou
a estrela de um reality show, sem vestir nada. Ou seja, não eram qualquer moça.
Era um destaque histórico e geográfico do momento. É isso que aguça, e continua
aguçando, os olhares. Por mais fácil que seja vermos o nu hoje, ainda é um
mistério a nudez de quem estampa essa capa. Ela não é parte do cotidiano de
quem está vendo. Então ainda mexe com a imaginação dele, enquanto só vê a capa.
Há a necessidade de olhar para o corpo dela, seja no papel ou pelas páginas da
web. É isso que faz uma revista como essa ainda ser elemento de consumo, mesmo
nos tempos de hoje. A nudez já não pode ser mais castigada. É como nos tempos
de folia, que é o nosso carnaval, saímos as ruas como os corpos a mostra, para
pular, curtir e quem quiser que repare.
Nesse espaço, entre nudez e era
digital, surge a “Spicy fire”, que começou como um site de ensaios sensuais.
Ensaios esses que sempre mexe com a libido, pois como dá entender não mostra
nada, só aguça. Entretanto quando a “Playboy” saiu de circulação, eles
perceberam que era hora de desnudar totalmente algumas meninas, visto que
justamente tem todo um glamour por trás e que, não importa o quanto evolua, os
homens sempre vão desejar ver uma mulher sexy como veio ao mundo, seja em
versão digital ou impressa.
E ainda tem o fato que cada mulher é
apresentada, então, no contexto em que faz sentido o seu corpo e o seu momento,
considerando até a razão momentânea pelo qual o convite interessou a ela. E
vale dizer que não há nada menos exclusivo que a nudez. Todos nascemos nus e
podemos retornar facilmente a esse estado. E isso não deveria chocar mais
tanto. Precisamos diminuir esse impacto que a falta de roupas em público ou em
fotos dá. Mesmo entre os índios, que andam com seios e órgãos genitais
expostos, a nudez só é aceita em circunstâncias específicas. Fora de contexto,
a nudez sempre choca, mais um motivo que ainda faz o público se interessar em
ver ensaios nus nas páginas de uma publicação. Aqui é permitido.
A nudez desperta desejo, atenção, temor e
assombro. Desejo, por expor à cobiça as partes do corpo, que normalmente são
reservadas ao estímulo sexual. Atenção, por ser um ato inusitado. Temor, por
representar uma transgressão às convenções sociais e morais, que são os
agravantes aos que criticam a exposição do corpo. E assombro, por partir de um
ato insólito. Sem roupa, o indivíduo está desarmado e vulnerável. Muitos até
acreditam que, se alguém tira a roupa em nome de uma causa, tem convicções
fortes. Exatamente por isso, que todo ato e manifestação, na grande maioria, o
recurso do nu é usado. A nudez é revolucionária, sempre se opõe ao poder.
Cometo ainda o direito de dizer que o nu
artístico já faz parte da nossa cultura e arte. E nem venham com a ideia chula
de “mulher pelada não é cultura”. Essa é uma frase de quem tem pouco trânsito
com a própria cultura. A fotografia da arte erótica, como tem sido exercida por
diversas revistas e sites, é um belo trabalho. A malícia provém dos olhares.
Pois toda nudez é inocente, a mente que é
indecente.
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